Lições de um pezinho torto

Conheçam essa linda história de amor e superação.
Parabéns pela iniciativa mamãe Mirela Manfro da Silva que nos ajuda a divulgar e informar sobre essa condição que é o Pé Torto Congênito. Sua dedicação e cuidados com seu filho Gabriel, foi capa e reportagem principal para o Jornal NH de Novo Hamburgo – RS

 

Foi durante minha segunda gestação, na ecografia morfológica de segundo trimestre, que fiquei sabendo pelo eco grafista que o Gabriel teria o chamado “Pé Torto Congênito”. A notícia me foi dada assim: “está tudo ótimo com o bebê. Só um detalhe, ele terá o pé direito torto. Chamamos isso de Pé Torto Congênito e geralmente é perfeitamente tratável com gessos e botinhas ortopédicas”. Diante da calma e experiência do eco grafista,o Dr.Gustavo, tentei me manter calma e me informar mais sobre o assunto. Confesso que não foi fácil, nunca tinha ouvido falar sobre “Pé Torto Congênito”. Senti muito medo e angústia diante do desconhecido. Conversei com muitas pessoas que me deram informações desencontradas e busquei na internet tudo sobre o assunto, o que só aumentou meu sentimento de apreensão. Até que, junto com meu marido, decidimos logo procurar um especialista no assunto. Repeti a ecografia em POA com o queridíssimo Dr. Eduardo Becker, que também me tranquilizou a respeito do PTC e me indicou o Dr. Sílvio Coelho, ortopedista pediátrico. É impressionante como mesmo dentro da barriga conseguíamos ver perfeitamente o nosso “pé tortinho”.
Na primeira consulta com o Dr. Silvio, ainda durante minha gestação, acreditei estar falando com a pessoa que nos traria a paz e a calma que realmente precisávamos para enfrentar o PTC. Saímos do seu consultório felizes e aliviados, sabendo que nosso filho teria a sorte de ser tratado por um médico maravilhoso e experiente, que nos explicou tudo a respeito do Pé Torto Congênito. Nos ouviu calmamente e respondeu às nossas milhares de dúvidas com a calma e o respeito de quem consegue entender a angústia dos pais que passam por uma situação que não conhecem. Naquele momento eu e meu marido literalmente nos apaixonamos por ele e nos sentimos abençoados por tê-lo conhecido.
A partir de então decidimos curtir a nossa gestação normalmente. Explicamos para nosso filho mais velho, Matteo de 6 anos, o que o mano teria do modo mais claro possível. Ele nos encheu de perguntas e sempre expressou seu sentimento de que não queria que o mano tivesse o pé torto. Nós também não queríamos, dissemos à ele,mas aceitamos e acolhemos nosso sentimento. Nossas famílias foram muito importantes nesse momento. Conversávamos a respeito juntos (e olha que a família é grande!) e dividíamos nossas sensações. Uns mais tranquilos, outros mais apreensivos. Já chamávamos o Gabriel de nosso “pezinho tortinho”.
Quando o Gabriel nasceu, ainda na sala de parto, foi possível identificar claramente o seu pezinho torto. Era lindamente tortinho! Com 10 dias de vida o Dr. Sílvio o examinou e nos explicou que seu caso era de nível “leve”. Ali tivemos a nossa grande ótima notícia. O médico nos explicou que seguia o tratamento chamado “Método Ponseti”, que se resume em colocações e trocas semanais de gessos, pequena cirurgia de corte no tendão do pé e uso de gesso por um mês. Por fim, uso da Órtese de Denis Brown (bota ortopédica nos 2 pés ligada por uma barra de ferro que mantém o pé torto num ângulo de 70 graus) por um período de três meses, tirando-a somente para o banho. Após os três meses, uso somente para dormir por até quatro anos, dependendo do caso.
Com 15 dias de vida do Gabriel, eu e meu marido o levamos para a Santa Casa de Porto Alegre,onde ele colocou o seu primeiro gesso. Este foi um momento muito marcante para a gente, pois conhecemos muitas histórias de vida no hospital. Histórias alegres com finais felizes, onde os pais faziam questão de dividir tudo com quem estava iniciando a jornada com seu filho. Outras tristes, que geralmente falavam a respeito do nosso péssimo sistema de saúde, que atrasa o tratamento das crianças e fazem-nas sofrer desnecessariamente. A grande maioria das famílias não possui plano de saúde e, sendo assim, não consegue levar o tratamento adiante. Mesmo quem possui o plano às vezes não possui o dinheiro para comprar a Órtese que deve sempre ser trocada regularmente durante o crescimento da criança. Se o tratamento não for seguido corretamente ou for interrompido (esperando, muitas vezes, autorizações sem fim dos planos de saúde) o pezinho volta a ficar torto, pois as crianças possuem a chamada “memória genética”, que faz o pé voltar a ser como era quando nasceu.
O Dr. Silvio Coelho, um guerreiro que atende sozinho TODO o SUS na especialidade de ortopedista pediátrica da Santa Casa nos recebia sempre com um sorriso no rosto e com a sua calma característica.Manipulava os gessos do Gabriel com uma experiência linda de se ver. Contava-nos como era sofrida a vida de quem esperava na fila do SUS para ser atendido. Atualmente são 400 crianças na fila de espera para cirurgia com ele, o único médico da especialidade. Uma fila para quem não pode esperar, que deve iniciar logo o tratamento, mas que espera, atrasa e dificulta o processo. Faz as crianças sofrerem, junto de suas famílias. Fila esta que o faz voltar para casa diariamente, como meu marido sempre destacava, com a sensação de não ter cumprido seu dever. Triste realidade, bem diferente do que as propagandas na TV nos mostram.
Bem, o Gabriel trocou 6 vezes de gesso. Tirávamos o gesso em casa, com a ajuda da Ana, nossa querida ajudante, que o ninava com carinho a cada troca e o levávamos direto para a Santa Casa para colocar um novo. No início foi mais sofrido e difícil. Víamos a perninha e o pezinho apertados, esmagadinhos, e sofríamos junto com ele. Depois de um tempo já estávamos “craques” no assunto, mas não menos sofridos pelo nosso bebê. Os gessos não pareciam incomodar o Gabriel, que sempre se manteve calmo e tranquilo. Quando saíamos com ele as pessoas perguntavam o que ele tinha e o mano Matteo já respondia prontamente: “ele tem pé torto congênito”.
Comemoramos muito quando, depois do sexto gesso, o Dr. Sílvio disse que o Gabi não precisaria de cirurgia. O pé torto tinha sido corrigido somente com os gessos. Que alegria! Passamos então para o uso da Órtese de Denis Brown. Os três primeiros dias foram horríveis. Confesso que no início chorei muito com Gabriel, pois os sapatinhos apertavam seus pezinhos e ele chorava bastante. Mas não podíamos tirar aquela bota horrível. Ficamos firmes no tratamento e o Gabriel, assim como seus pezinhos, pareciam aos poucos se acostumar com as botinhas. Ajustamos as roupinhas do Gabi para serem mais fáceis de colocá-las sem retirar a órtese. Todos na nossa casa precisaram se adaptar. E tem funcionado. Meu sentimento com relação à órtese ainda não é bom, pois o Gabriel está crescendo e quando a tiramos para o banho, ele dá muitas risadas e se mostra feliz em mexer “enlouquecidamente” os seus pés. Parece nos dizer: “viva, estou livre”! Por isso nunca vou gostar dela. Mas a aceito e entendo que o tratamento é o que tem feito o nosso pezinho torto deixar de ser torto.
Toda a nossa caminhada com o PTC nos ensinou muito. Eu me senti na obrigação de ajudar a quem não possui a sorte de encontrar e de poder levar seu filho num ótimo médico. Tento me engajar em diversos grupos e associações que ajudam famílias que estão enfrentando mesmo problema. O Gabriel nos recompensa diariamente com um sorriso e quem o conhece sabe do que falo.
Só tenho a agradecer à vida em ter meu pezinho torto tratado, aqui com a gente, feliz e se desenvolvendo bem. A minha família maravilhosa que muito me ouviu e me deu “colo”, sempre.Meu marido, sempre junto com a gente, nossa, que exemplo de pai! Meu filho Matteo, que dá ao mano todo o cuidado e carinho possível. E em especial ao Dr. Silvio, um anjo, que eu nunca serei capaz de agradecer o suficiente.

Sem título

Sem título.png

 

 

Anúncios

A Associação Primeiro Passo é uma entidade civil que nasceu do desejo de muitos pais de crianças com pé torto congênito que foram tratadas pelo método Ponseti e tem como intuito multiplicar, incentivar e difundir esta técnica de tratamento em meios médicos e não médicos. A APP funciona regularmente sob o CNPJ 12.950.014/0001-55. Uma meta idealizada pela Associação é que o método de Ponseti fosse assimilado e realizado corretamente por profissionais pelo SUS e ficasse disponibilizado a todo cidadão brasileiro. Enquanto esse ideal ainda não é uma realidade, todavia, fazemos esforços para divulgar o tratamento do pé torto congênito pela técnica de Ponseti, atuando na detecção precoce desta alteração ortopédica, no suporte e facilitação de centros de tratamento intersetoriais no Brasil e no exterior. A meta mais abrangente de nossa visão de entidade civil é promover a erradicação do pé torto congênito não tratado, no Brasil e no mundo.

Marcado com: , , , , , , , , , ,
Publicado em INFORMAÇÕES, NOTÍCIAS, TESTEMUNHOS
Um comentário em “Lições de um pezinho torto
  1. Eliane Cristina da Silva Coelho disse:

    Infelizmente com nossa neta teve um ortopedista que fez a segunda cirurgia por negligência e irresponsável o seu pé necrossar ao ponto de deixalá mutilada para o resto da vida.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Follow Associação Primeiro Passo on WordPress.com
%d blogueiros gostam disto: